IA nas eleições: como plataformas terão de agir em 2026

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Quando pensamos em tecnologia e eleições, a primeira preocupação costuma ser aquilo que uma pessoa publica.

Uma montagem.

Uma informação falsa.

Um vídeo manipulado.

Uma propaganda irregular.

Nas Eleições 2026, porém, a discussão ficou maior.

O Tribunal Superior Eleitoral passou a exigir que grandes plataformas digitais expliquem como seus próprios sistemas pretendem prevenir e responder a riscos eleitorais.

Em 4 de setembro, a Justiça Eleitoral tornou públicos os planos de conformidade apresentados por nove plataformas:

  • Google;
  • Kwai;
  • LinkedIn;
  • Mercado Livre;
  • Meta;
  • OpenAI;
  • Telegram;
  • TikTok;
  • X.

Os documentos descrevem procedimentos relacionados a remoção de conteúdo, suspensão de perfis, fornecimento de dados, interrupção de propaganda irregular e outras medidas voltadas à integridade do processo eleitoral.

Mas existe uma mudança ainda mais importante por trás dessa lista.

As regras não olham apenas para redes sociais.

Elas também alcançam mecanismos de busca, serviços de mensageria e chatbots de inteligência artificial generativa.

Isso significa que a eleição de 2026 não está lidando somente com aquilo que as pessoas publicam na internet.

Está começando a lidar também com como as próprias plataformas organizam, recomendam, produzem e respondem sobre informação eleitoral.

Por que as plataformas tiveram de apresentar esses planos?

A exigência foi regulamentada pelo TSE por meio da Portaria nº 463, de 27 de julho de 2026.

Ela determina que determinados provedores de aplicações de internet apresentem planos de conformidade destinados a prevenir e reduzir riscos à integridade eleitoral.

A regra abrange serviços capazes de participar de diferentes etapas da circulação de conteúdo político.

Entre eles estão plataformas que permitem:

  • publicação;
  • compartilhamento;
  • distribuição;
  • recomendação;
  • indexação;
  • impulsionamento;
  • monetização;
  • geração de conteúdo sintético por IA.

Também entram serviços de mensageria que possuam canais públicos ou estruturas abertas de grande alcance.

A obrigação atinge principalmente provedores com mais de cinco milhões de usuários ativos mensais no Brasil, embora o TSE possa exigir planos simplificados de outros serviços considerados relevantes para o processo eleitoral.

Um chatbot também pode influenciar como alguém recebe informação política

Essa talvez seja uma das maiores diferenças em relação a eleições anteriores.

Uma rede social distribui publicações produzidas por usuários.

Um chatbot de IA pode fazer algo diferente:

produzir uma resposta nova.

Uma pessoa pode perguntar:

“Quem são os principais candidatos?”

“Qual candidato tem a melhor proposta para determinado tema?”

“Quem está mais preparado?”

“Qual candidato devo escolher?”

A IA não está simplesmente mostrando uma página existente.

Ela precisa construir uma resposta.

Isso cria riscos diferentes daqueles encontrados em um feed tradicional.

O sistema pode:

  • apresentar informação desatualizada;
  • inventar fatos;
  • atribuir propostas incorretamente;
  • criar hierarquias entre candidaturas;
  • selecionar determinadas fontes e ignorar outras;
  • produzir respostas diferentes dependendo de como a pergunta é formulada.

É por isso que chatbots passaram a aparecer explicitamente dentro das regras eleitorais.

O MPF testou sete ferramentas de IA

Um levantamento realizado pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio em parceria com o Ministério Público Federal ajuda a mostrar por que essa preocupação existe.

Na quarta edição da pesquisa Boca de IA, foram analisadas respostas de sete ferramentas populares:

  • ChatGPT;
  • Gemini;
  • Meta AI;
  • DeepSeek;
  • Grok;
  • Perplexity;
  • Claude.

Segundo o MPF, quando questionadas sobre as Eleições 2026, essas ferramentas ranquearam, ordenaram ou hierarquizaram candidaturas em 90% das respostas analisadas.

Isso chama atenção porque a regulamentação eleitoral estabelece restrições a esse tipo de comportamento.

O mesmo levantamento identificou ainda alucinações em 16% das respostas.

Em outras palavras, em parte das consultas, as ferramentas apresentaram informações incorretas ou inventadas.

Alucinação deixa de ser apenas um problema técnico

Quando uma IA erra uma curiosidade sobre um filme ou um produto, o dano pode ser pequeno.

Quando erra:

  • nome de candidato;
  • proposta;
  • situação jurídica;
  • informação sobre eleição;
  • regra de votação;

o efeito pode ser muito mais sério.

Isso transforma um problema conhecido dos modelos de linguagem em uma questão de integridade informacional.

É importante também observar outro dado da pesquisa do MPF.

Fontes consideradas oficiais — como páginas verificadas de candidatos e partidos, Gov.br e outros órgãos públicos — apareceram em apenas parte das respostas analisadas.

Isso reforça uma prática importante para quem usa IA durante uma eleição:

não tratar a resposta do chatbot como fonte final.

Para informação eleitoral relevante, a origem continua importando.

Os planos das plataformas não significam que o problema está resolvido

A publicação dos documentos é importante.

Mas existe uma diferença entre:

descrever uma política

e

executá-la de maneira consistente em escala.

O próprio TSE reconhece essa diferença.

A Portaria 463 exige que os planos apresentem medidas específicas, prazos de implementação, critérios e mecanismos de controle.

A norma também estabelece que compromissos genéricos ou declarações abstratas não são suficientes.

Mais importante:

o cumprimento das obrigações deve poder ser verificado.

Portanto, o plano não funciona apenas como uma carta de boas intenções.

Ele passa a ser também uma referência para acompanhar o comportamento das empresas durante o processo eleitoral.

O que as plataformas precisam explicar?

Os documentos precisam refletir as características de cada serviço.

Isso é importante porque um chatbot não funciona como uma rede social.

Uma rede social não funciona como um aplicativo de mensagens.

Um mecanismo de busca também possui outra arquitetura.

Por isso, o TSE permite que empresas de um mesmo grupo apresentem documentos integrados, mas exige identificação das medidas aplicáveis a cada funcionalidade.

Entre os pontos relevantes estão estruturas para cumprir determinações relacionadas a:

  • remoção de conteúdo;
  • suspensão de contas;
  • fornecimento de dados;
  • interrupção de propaganda irregular;
  • prevenção de riscos à integridade eleitoral;
  • moderação de conteúdos notoriamente falsos ou gravemente descontextualizados.

A forma técnica de implementar essas medidas continua sendo definida pelas próprias empresas.

O TSE determina o resultado esperado.

A plataforma decide como implementá-lo.

Google, Meta, TikTok e X não enfrentam exatamente o mesmo problema

É tentador colocar todas as plataformas na mesma categoria.

Mas isso esconderia diferenças importantes.

Uma plataforma como TikTok ou Instagram precisa lidar fortemente com circulação, recomendação e alcance de conteúdo.

O X possui outra dinâmica de distribuição e interação pública.

O Telegram combina mensageria com canais públicos.

O Google possui busca, publicidade e diferentes serviços de informação.

A OpenAI opera um chatbot capaz de gerar respostas diretamente para o usuário.

Isso significa que os riscos também mudam.

Em uma rede social, a questão pode ser:

por que determinado vídeo recebeu grande alcance?

Em um chatbot:

por que a IA respondeu dessa maneira?

Em um buscador:

por que determinada fonte apareceu primeiro?

A regulação começa a enfrentar justamente essa diversidade.

E onde entra a inteligência artificial generativa?

Em duas partes diferentes.

A primeira é a criação de conteúdo.

IA pode produzir:

  • texto;
  • imagem;
  • áudio;
  • voz;
  • vídeo.

Isso permite criar materiais eleitorais em escala e com aparência cada vez mais realista.

A segunda parte é menos visível:

a IA também pode ser intermediária da informação.

Chatbots e mecanismos baseados em modelos generativos podem resumir notícias, explicar propostas e responder diretamente perguntas políticas.

Portanto, IA não aparece apenas como ferramenta de campanha.

Pode aparecer também como interface entre o eleitor e a informação.

Essa diferença é fundamental.

Nem toda imagem produzida por IA é automaticamente deepfake

O TSE definiu em setembro critérios mais claros para caracterizar deepfake nas Eleições 2026.

Segundo o entendimento da Corte, deepfake envolve conteúdo sintético produzido ou manipulado por inteligência artificial ou tecnologia equivalente que apresente grau de realismo ou verossimilhança e crie, reproduza ou altere imagem, voz ou manifestação de uma pessoa.

A definição pode envolver pessoa:

  • viva;
  • falecida;
  • fictícia.

Mas existe outra condição importante.

A vedação eleitoral específica ao uso de deepfake exige também que aquele conteúdo seja caracterizado como propaganda eleitoral.

Portanto, a análise depende do contexto.

Não é correto resumir a regra como:

“qualquer imagem feita por IA é deepfake.”

Então editar uma foto com IA é permitido?

Não existe uma resposta única apenas olhando para a ferramenta utilizada.

É necessário observar:

  • o que foi alterado;
  • o nível de realismo;
  • quem está sendo representado;
  • qual mensagem está sendo transmitida;
  • onde o conteúdo foi publicado;
  • se possui natureza de propaganda eleitoral.

Uma correção de iluminação realizada com IA e um vídeo sintético reproduzindo falsamente a fala de uma pessoa são situações muito diferentes.

A tecnologia utilizada é apenas uma parte da análise.

O efeito produzido também importa.

O problema do deepfake não é apenas a qualidade visual

Durante algum tempo, reconhecer uma montagem por IA podia ser relativamente fácil.

Dedos errados.

Textos deformados.

Movimentos estranhos.

Voz artificial.

Esses sinais estão desaparecendo rapidamente.

Quanto mais convincente se torna o material sintético, menos segura fica a regra informal:

“eu consigo perceber quando é falso.”

É justamente por isso que regulamentação, identificação de conteúdo e mecanismos de plataforma passam a ter importância maior.

A responsabilidade não pode depender apenas da capacidade do usuário de reconhecer uma fraude visual.

Mas IA não é o único problema eleitoral das plataformas

Seria um erro transformar as eleições de 2026 numa discussão apenas sobre deepfake.

Existem outras questões igualmente importantes:

  • desinformação textual;
  • contas falsas;
  • propaganda irregular;
  • impulsionamento;
  • redes coordenadas;
  • conteúdo gravemente descontextualizado;
  • uso inadequado de dados;
  • descumprimento de ordens;
  • recomendação algorítmica;
  • monetização.

IA acrescenta uma nova camada.

Ela não substitui os problemas anteriores.

Recomendação também é poder

Existe uma característica das plataformas que costuma passar despercebida.

Elas não precisam criar um conteúdo para influenciar sua visibilidade.

Basta decidir:

  • o que aparece;
  • para quem aparece;
  • em qual ordem;
  • com qual frequência.

Isso vale para redes sociais e mecanismos de busca.

Em uma eleição, essa arquitetura se torna especialmente sensível.

Duas pessoas podem acessar a mesma plataforma e receber experiências completamente diferentes.

Por isso a integridade eleitoral não depende apenas de remover material ilegal depois que ele aparece.

Também envolve compreender os sistemas que distribuem e amplificam informação.

Com IA, essa camada fica ainda menos visível

Quando um chatbot responde uma pergunta, geralmente não vemos todo o processo usado para construir aquela resposta.

Não sabemos exatamente:

  • quais informações pesaram mais;
  • quais fontes foram descartadas;
  • por que aquela estrutura foi escolhida;
  • quais limitações internas foram aplicadas.

Isso não significa que a resposta tenha sido manipulada deliberadamente.

Significa apenas que sistemas generativos possuem uma lógica diferente de uma lista tradicional de links.

Para eleições, essa diferença exige novas formas de auditoria e monitoramento.

O que muda para o usuário comum?

Primeiro:

IA pode ajudar a entender uma eleição, mas não deveria ser tratada como autoridade eleitoral.

Ela pode ser útil para:

  • explicar termos;
  • organizar perguntas;
  • resumir documentos;
  • comparar informações fornecidas pelo próprio usuário;
  • ajudar a localizar fontes.

Mas decisões importantes deveriam ser confirmadas em fontes confiáveis.

Para informações sobre regras eleitorais, por exemplo, a Justiça Eleitoral continua sendo a referência adequada.

Para propostas de candidatos, vale procurar:

  • programa oficial;
  • página oficial;
  • documento da candidatura;
  • fonte jornalística confiável.

Desconfie especialmente de respostas muito conclusivas

Perguntas como:

“qual é o melhor candidato?”

parecem simples.

Mas escondem valores pessoais.

Melhor em quê?

Economia?

Saúde?

Transporte?

Educação?

Segurança?

Meio ambiente?

Uma IA pode organizar critérios.

Não deveria substituir a decisão política do eleitor.

O dado do MPF sobre hierarquização de candidaturas mostra por que essa fronteira merece atenção.

As plataformas também terão de aprender durante a eleição

Um plano de conformidade é preparado antes de todos os problemas acontecerem.

Na prática, novas situações aparecerão.

Novos formatos de conteúdo.

Novos usos de IA.

Novas tentativas de contornar regras.

Novas formas de distribuição.

Por isso, o verdadeiro teste será operacional.

A pergunta não será apenas:

“a empresa possuía uma política?”

Será:

“essa política funcionou quando o problema apareceu?”

Transparência será uma parte importante desse teste

A Portaria do TSE estabelece transparência e verificabilidade entre os princípios dos planos.

Isso significa que o acompanhamento público não deveria depender somente de declarações das próprias empresas.

A norma prevê mecanismos capazes de permitir avaliação do cumprimento das medidas.

Essa talvez seja uma das mudanças mais relevantes de 2026.

A discussão começa a sair de:

“confie que estamos fazendo alguma coisa”

para:

“mostre como a medida funciona e permita que seu cumprimento seja avaliado.”

Não existe eleição digital separada da eleição real

Durante muito tempo, falar de eleição na internet parecia tratar de um ambiente paralelo.

Hoje essa divisão praticamente não existe.

Pessoas:

  • conhecem candidaturas pela internet;
  • assistem a debates;
  • recebem mensagens;
  • pesquisam propostas;
  • veem vídeos;
  • fazem perguntas a chatbots;
  • compartilham conteúdo;
  • recebem recomendações algorítmicas.

A infraestrutura digital passou a fazer parte da própria experiência eleitoral.

É por isso que as regras também estão mudando.

A eleição de 2026 será um teste para as plataformas

Google, Meta, TikTok, X, OpenAI e as demais empresas não estão apenas publicando documentos.

Estão assumindo compromissos que poderão ser comparados com o comportamento real de seus serviços.

E isso acontece num momento particularmente complexo.

IA consegue produzir conteúdo em escala.

Deepfakes estão mais convincentes.

Chatbots passaram a responder diretamente perguntas sobre candidatos.

Sistemas de recomendação continuam decidindo parte relevante do que bilhões de pessoas veem.

Por isso, integridade eleitoral deixou de ser apenas uma questão de apagar uma publicação depois que ela já circulou.

Ela passa a envolver também:

  • arquitetura;
  • recomendação;
  • geração;
  • moderação;
  • transparência;
  • resposta rápida;
  • prestação de contas.

O usuário também continua fazendo parte do sistema

Regulação e tecnologia ajudam.

Mas não eliminam completamente a responsabilidade individual.

Antes de compartilhar uma informação eleitoral:

  • procure a fonte original;
  • observe a data;
  • verifique se imagem ou áudio possuem contexto;
  • desconfie de conteúdo excessivamente emocional;
  • confirme afirmações importantes;
  • não trate resposta de IA como prova.

Se houver irregularidade relacionada à propaganda eleitoral, existem canais oficiais para denúncia, incluindo o aplicativo Pardal da Justiça Eleitoral.

A grande mudança está na responsabilidade da plataforma

A eleição digital costumava ser discutida principalmente em torno de quem publica o conteúdo.

Em 2026, a pergunta ganhou outra camada:

o que a plataforma fez com esse conteúdo — ou com essa informação?

Ela recomendou?

Impulsionou?

Removeu?

Gerou?

Respondeu?

Monetizou?

Descontextualizou?

Cumpriu uma ordem?

É essa mudança que torna os planos de conformidade importantes.

Eles mostram que grandes plataformas digitais estão deixando de ser tratadas apenas como lugares onde a disputa eleitoral acontece.

Também passam a ser cobradas como infraestruturas que organizam parte dessa disputa.

E quando inteligência artificial entra nesse sistema, a responsabilidade aumenta.

Porque a tecnologia já não apenas transporta aquilo que alguém escreveu.

Em alguns casos, ela própria constrói a resposta que o eleitor recebe.

É por isso que as Eleições 2026 serão um teste não apenas para candidatos e eleitores.

Serão também um teste para as plataformas que passaram a ocupar uma posição cada vez mais central entre informação, tecnologia e decisão.

O método é o protagonista. A ferramenta é o veículo.

Valiant Tecnologia — promovendo evolução consciente.

Fontes consultadas