Tibia: o jogo que despertou meu interesse por tecnologia

tibia o jogo que despertou meu interesse por tecnologia

Tibia foi meu primeiro jogo online.

Durante muito tempo, essa foi a maneira mais simples que encontrei para explicar a importância dele na minha vida. Hoje, porém, percebo que o jogo representou muito mais.

Foi por causa de Tibia que comprei meu primeiro computador. Foi tentando jogar, treinar personagens e resolver problemas que comecei a pesquisar configurações, instalar programas, conhecer componentes e aprender a montar máquinas.

O interesse que começou com um jogo acabou se transformando em curiosidade por computadores e, depois, em uma paixão pela tecnologia que me acompanha até hoje.

Tudo isso começou dentro da minha própria casa, enquanto eu observava os amigos do meu filho jogando depois da escola.

O que havia de tão interessante naquele jogo?

Conheci Tibia por meio dos amigos do meu filho.

Eles chegavam da escola e se reuniam em casa para jogar. A diversão era imensa. Falavam alto, comemoravam, ficavam nervosos e demonstravam uma euforia que despertava minha curiosidade.

Enquanto isso, eu apenas observava.

Eu já gostava de videogames, mas minha experiência vinha dos consoles. Jogar pela internet, entrar em um mundo habitado por outras pessoas e controlar um personagem que continuava evoluindo era algo completamente novo para mim.

Os gráficos de Tibia eram simples. Olhando de longe, eu não entendia como aquele jogo conseguia prender tanto a atenção deles.

Mas alguma coisa estava acontecendo ali.

As pessoas não estavam apenas completando fases. Elas conversavam, negociavam, formavam grupos, disputavam territórios e viviam acontecimentos que não se repetiam exatamente da mesma maneira.

Depois de algum tempo apenas olhando, resolvi ficar ao lado do computador para acompanhar mais de perto.

Eles perceberam minha presença e disseram:

— Cria um char e joga com a gente. O jogo é da hora.

“Char” era como eles chamavam o personagem, uma abreviação de character.

Eu respondi que só queria entender como aquilo funcionava.

Mas a curiosidade já havia começado.

A criação de Stuty

Um dia, resolvi criar uma conta.

Perguntei como poderia começar e, na mesma hora, eles me ajudaram a entrar no site oficial, fazer o cadastro e criar meu primeiro personagem.

O nome dele era Stuty.

Era um knight que usava espadas. Na linguagem do jogo, eu precisava desenvolver principalmente o sword fighting e a defesa.

Naquele momento, ainda estava aprendendo até os nomes das vocações, habilidades, armas e equipamentos.

Tibia já existia havia alguns anos. A versão 1.0 e o primeiro servidor público entraram no ar em 7 de janeiro de 1997, quando o jogo ainda era um projeto universitário. A CipSoft, empresa responsável por seu desenvolvimento, foi fundada em junho de 2001.

Eu não sabia de nada disso.

Para mim, Tibia era apenas aquele jogo misterioso que fazia os amigos do meu filho gritarem diante do computador.

Minha primeira caçada durou poucos segundos

No dia seguinte, esperei todos irem para a escola e entrei no jogo sozinho pela primeira vez.

Na época em que comecei a jogar de verdade, por volta de 2004, meu personagem estava no mundo de Samera, o mesmo em que eles jogavam.

Quando Stuty apareceu, estava no DP, o depósito usado pelos jogadores.

Eu não conhecia o mapa, não entendia direito o combate e estava equipado com uma knife e uma armadura muito simples.

Mesmo assim, saí para caçar.

A primeira criatura que encontrei parecia uma esfiha aberta.

Era um rotworm.

Fui para cima dele sem pensar muito.

Tomei dois hits e deitei.

Foi minha primeira morte em Tibia.

Perdi minha bag, minha arma e minha armadura de pano. Quando o personagem reapareceu no DP, estava praticamente pelado.

Saí do jogo pensando:

— Preciso aprender um pouco mais antes de sair para caçar.

O mais curioso é que aquela derrota não me afastou do jogo.

Ela fez exatamente o contrário.

Eu queria entender o que tinha acontecido. Queria descobrir por que meu personagem era tão fraco, como funcionavam os equipamentos e o que deveria fazer para ficar mais preparado.

Não bastava apertar os botões melhor.

Era necessário compreender o sistema.

Aprender a jogar significava aprender a pesquisar

Com o tempo, os meninos começaram a me ensinar.

Descobri que precisava treinar os skills para deixar Stuty mais forte. Como ele era um knight de espada, eu deveria melhorar principalmente o sword fighting e o shielding.

O problema era que o treinamento demorava muito.

Era preciso manter o personagem conectado durante horas e acompanhar uma evolução lenta. Não existiam as facilidades que o jogo ganharia anos depois.

O treinamento offline seria introduzido oficialmente somente em 2012, inicialmente como um benefício para jogadores Premium. Antes disso, quem queria desenvolver os skills precisava manter o personagem treinando enquanto permanecia conectado.

Havia apenas um computador disponível em casa, e aquilo já não estava funcionando para mim.

Eu queria jogar com mais liberdade.

Foi então que resolvi comprar meu primeiro computador.

O Pentium 200 MMX

Eu não entendia praticamente nada de PCs.

Comecei a pesquisar nas lojas da região da Santa Ifigênia, em São Paulo, que naquela época era uma referência para quem procurava equipamentos, peças e preços mais acessíveis.

Precisava descobrir quais configurações seriam suficientes para rodar o jogo, quanto poderia gastar e quais componentes realmente importavam.

Depois de alguns dias pesquisando, comprei um computador usado:

um Pentium 200 MMX.

Nunca me esqueci daquela máquina.

Era usada, mas estava muito bem conservada. Assim que cheguei em casa, comecei a instalar Tibia.

O Pentium 200 MMX foi comprado para jogar.

Essa ordem é importante.

Eu ainda não tinha comprado um computador porque queria estudar hardware ou trabalhar com tecnologia. Queria entrar naquele mundo online, jogar com mais liberdade e desenvolver meu personagem.

Mas, para conseguir fazer isso, precisei começar a entender a máquina.

Aprendi a instalar programas, ajustar configurações e lidar com os problemas que apareciam.

A internet era discada, ruim pacas. A conexão não tinha a estabilidade que temos hoje, mas ainda assim os personagens passavam horas conectados.

Cada dificuldade me obrigava a procurar uma solução.

E, a cada solução encontrada, o computador deixava de parecer uma caixa misteriosa.

O segundo computador não tinha nem monitor

Com o tempo, entendi que o treinamento dos personagens consumia muitas horas.

Eu queria jogar no computador principal, mas também precisava deixar um personagem treinando.

Foi então que comprei um segundo computador usado.

Esse segundo PC não foi comprado para jogar normalmente. Sua função era ajudar no treinamento.

A máquina era tão improvisada que nem tinha monitor.

Eu ligava o computador, fazia o login e deixava o personagem treinando. Conseguia acompanhar o que estava acontecendo pela tela do outro computador.

Era uma gambiarra daquelas.

Mas funcionava.

Hoje, olhando para trás, percebo que essa cena representa muito bem o nascimento do meu interesse por tecnologia.

Eu ainda não tinha formação técnica nem equipamentos sofisticados. Tinha dois computadores usados, uma conexão discada e um problema que queria resolver.

Precisava entender cabos, instalação, configuração e funcionamento das máquinas.

A necessidade de jogar me fazia experimentar.

Em vez de simplesmente desistir porque o segundo computador não tinha monitor, procurei uma forma de utilizá-lo.

Essa vontade de encontrar soluções ficaria comigo muito depois de eu parar de jogar Tibia.

O nascimento de Druid Collossus

Foi nesse período que criei Druid Collossus.

Ele nasceu como um personagem de apoio, aquilo que chamávamos de maker.

A ideia era ajudar durante o treinamento de Stuty. Enquanto o knight desenvolvia seus skills, o druida podia fabricar runas.

Depois, eu vendia essas runas para conseguir gold, o dinheiro do jogo.

O personagem que deveria ser apenas um ajudante acabou ficando forte também.

Essa era uma das coisas interessantes em Tibia: um personagem secundário podia ganhar sua própria história.

Druid Collossus começou como parte de uma estratégia de treinamento e produção de recursos, mas passou a representar outra maneira de jogar.

Enquanto Stuty dependia da força física e do treinamento com espadas, o druida exigia atenção à magia, à mana e às runas.

Sem perceber, eu estava administrando dois personagens, duas máquinas e diferentes tarefas dentro do mesmo mundo.

Não era apenas uma caçada ocasional.

Havia planejamento.

O medo de morrer em um mundo PvP

Samera era um mundo com PvP.

Isso significava que os monstros não eram o único perigo.

Outros jogadores também podiam atacar.

E sempre havia algum engraçadinho disposto a matar personagens de nível baixo.

Muitas vezes, não existia uma luta equilibrada. Um jogador mais forte aparecia, atacava e acabava com tudo rapidamente.

Morri muitas vezes.

Às vezes para monstros.

Às vezes para outros jogadores.

Cada morte trazia aquela sensação ruim de pensar nas horas necessárias para recuperar os itens, a experiência e os skills perdidos.

Foi nesse contexto que conheci as blessings, que nós chamávamos simplesmente de “bless”, e a Premium Account.

Eram coisas diferentes.

As blessings serviam para reduzir as penalidades da morte. Dependendo das proteções que o personagem possuía, diminuíam a perda de experiência e skills e podiam evitar a perda de equipamentos.

A Premium Account dava acesso a áreas especiais e outros recursos do jogo. Para nós, isso significava entrar em mapas melhores, encontrar lugares com menos jogadores e ter novas possibilidades de caça. A própria CipSoft descreve o status Premium como uma forma de liberar áreas, itens e funcionalidades adicionais.

O medo de morrer não desaparecia.

Ainda existia o risco de encontrar jogadores mais fortes, entrar em uma caverna perigosa ou enfrentar um monstro acima das nossas possibilidades.

Mas a bless evitava que uma morte destruísse tantas horas de evolução.

E a Premium ampliava o mundo que podíamos explorar.

Computadores ligados durante dias e noites

Meus personagens ficavam conectados por longos períodos.

Os computadores passavam dias e noites ligados. Quase nunca eram desligados.

Stuty treinava.

Druid Collossus produzia runas.

E eu acompanhava aquele progresso devagar.

Para quem joga atualmente, acostumado a recompensas mais rápidas, talvez seja difícil entender o prazer de ver uma habilidade subir depois de tantas horas.

Cada ponto conquistado tinha peso.

Quando Stuty finalmente atingiu skill 100, senti que estava preparado para caçar de verdade.

Comecei a entrar nas cavernas de dwarfs e farmava bastante.

O knight que havia morrido para um rotworm usando uma knife agora conseguia enfrentar aventuras muito maiores.

Era muito bom perceber aquela evolução.

Ela não tinha acontecido de uma hora para outra.

Foi construída com tempo, paciência, dois computadores usados e uma gambiarra sem monitor.

O demon que nunca conseguimos matar

Apesar de toda a evolução, havia uma criatura que nunca consegui derrotar:

o demon.

Fui algumas vezes com a galera.

Tentávamos organizar o grupo, reunir os equipamentos e enfrentar o monstro.

Normalmente, acabava morrendo todo mundo.

Não existe uma grande vitória heroica para contar nessa parte.

Nunca matei um demon.

Mas essas derrotas se transformaram em algumas das lembranças mais divertidas.

Nós entrávamos acreditando que daquela vez seria diferente.

Depois, alguma coisa dava errado e o grupo inteiro acabava no chão.

Em Tibia, até os fracassos viravam histórias.

Os amigos eram maiores que os gráficos

Quando penso em Tibia hoje, não me lembro apenas dos mapas, monstros, armas ou runas.

Lembro das pessoas.

Lembro de Ferson Nightwolver, Sir Nigthmare, Ratinho, Profeta do Mal, dono da lan house onde às vezes fazíamos corujões, e de muitos outros que fizeram parte daquela época.

Talvez algum desses nomes esteja escrito de maneira um pouco diferente da registrada no jogo.

Mas foi assim que eles permaneceram na minha memória.

Os corujões na lan house eram aventuras fora da tela.

Passávamos a madrugada jogando, conversando, organizando caçadas e rindo das mortes.

O jogo acontecia online, mas a experiência não ficava presa ao computador.

Ela continuava na sala da minha casa, na lan house e nas conversas entre os jogadores.

Aqueles gráficos simples sustentavam uma comunidade cheia de histórias.

Samera deixou de existir, mas as histórias permaneceram

Anos depois, Samera deixou de existir com aquele nome.

Em 2014, a CipSoft anunciou que Samera, Trimera e Keltera seriam fundidos em um novo mundo chamado Thera.

Para a empresa, uma fusão de mundos envolve população, infraestrutura e organização dos servidores.

Para quem jogou ali, significa que o lugar onde tantas coisas aconteceram desaparece da lista de mundos.

Mas as histórias não desaparecem.

As cavernas, as mortes, as amizades e as madrugadas continuam existindo na memória de quem participou daquela época.

E o mais curioso é saber que alguns daqueles personagens talvez ainda existam dentro do jogo.

Mesmo depois de tantos anos, mudanças e fusões de servidores, certos nomes podem continuar registrados naquele mundo virtual.

É quase como encontrar uma fotografia antiga em um lugar onde não esperávamos.

Quando o trabalho exigiu que eu parasse

Chegou um momento em que meu trabalho passou a exigir mais tempo e atenção.

Já não era possível manter a mesma rotina de treinamento, caçadas, corujões e computadores ligados durante a madrugada.

Precisei parar de jogar.

Não houve uma grande despedida.

Não me lembro de entrar no jogo sabendo que aquela seria a última vez.

A vida simplesmente começou a ocupar o espaço que antes pertencia a Tibia.

Mas o jogo nunca desapareceu completamente.

Ficaram as lembranças da diversão e do medo de morrer.

Ficaram as cavernas de dwarfs, as runas, os jogadores mais fortes e as tentativas frustradas de matar demons.

Ficaram os amigos.

Ficou o Pentium 200 MMX.

Ficou também aquele segundo computador usado, sem monitor, funcionando em uma gambiarra que fazia todo sentido para mim.

Tibia despertou meu interesse por computadores

Durante muito tempo, pensei em Tibia apenas como meu primeiro jogo online.

Hoje, percebo que essa definição é pequena.

Tibia foi o jogo que despertou meu interesse por computadores.

Por causa dele, comecei a pesquisar máquinas e configurações.

Aprendi a instalar programas.

Passei a observar componentes e entender a função de cada peça.

Comecei a montar, configurar e resolver problemas.

A curiosidade que nasceu porque eu queria jogar melhor se transformou em curiosidade pela tecnologia.

Primeiro, eu queria entender como deixar Stuty mais forte.

Depois, queria compreender como o computador funcionava.

Uma coisa levou à outra.

O jogo foi o motivo para comprar o Pentium 200 MMX.

O treinamento foi o motivo para comprar outro computador usado.

A falta de um monitor me obrigou a improvisar.

A internet discada e os problemas de configuração me fizeram pesquisar.

A cada dificuldade resolvida, eu aprendia alguma coisa nova.

Muito antes de a Valiant Tecnologia existir, essa vontade de observar, pesquisar, experimentar e compreender já estava sendo construída.

E começou de uma forma inesperada:

com os amigos do meu filho reunidos em casa, jogando um game que eu ainda não entendia.

Meu primeiro mundo online

Tibia continua sendo reconhecido pela própria CipSoft como um dos MMORPGs mais antigos desenvolvidos na Europa, baseado na exploração, na evolução dos personagens e na interação social entre jogadores.

Mas nenhuma descrição oficial consegue explicar completamente o que ele representou para mim.

Tibia foi meu primeiro mundo online.

Foi onde criei Stuty e Druid Collossus.

Foi onde morri para um rotworm que parecia uma esfiha aberta.

Foi onde aprendi a ter medo de outros jogadores, a valorizar cada equipamento e a comemorar cada skill conquistado.

Foi onde vivi corujões, amizades e aventuras que continuavam sendo comentadas mesmo depois que saíamos do jogo.

E foi também onde nasceu meu interesse por computadores e tecnologia.

Talvez eu nunca tenha conseguido matar um demon.

Mas, enquanto tentava, aprendi algo que acabou sendo muito mais importante.

Aprendi a pesquisar, experimentar, configurar, improvisar e tentar novamente.

No fundo, a tecnologia entrou na minha vida da mesma maneira que comecei a jogar Tibia:

primeiro observando de longe;

depois chegando mais perto;

e finalmente criando coragem para entrar naquele mundo.

Hoje, sinto muitas saudades.

Mas também sinto gratidão.

Porque aquele jogo não me deu apenas boas lembranças.

Ele ajudou a abrir o caminho que me trouxe até aqui.

O método é o protagonista. A ferramenta é o veículo.

Fontes oficiais consultadas